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Nossa Princesa Isabel: nem Rainha; nem insustentável Imperatriz... A Lei de proibição do trabalho escravo teve valor mais iconográfico ou simbólico, do que prático: porque seria necessário igualmente dar aos libertos lugar de vivência, e material de produção. Porém, devido ao impacto econômico e moral sobre os feudais-burgueses, a Princesa foi destronada por um golpe de estado militar. Este novo regime tem a característica de uma ditadura de burguesia rural contra a ascensão das classes trabalhadoras, ao passo que a monarquia da Princesa seria social-reformista. (Nas décadas de 10 e 20, os comunistas e anarquistas se multiplicaram; e talvez por causa disso mesmo).

Somente a revolução de 1930 pode ser considerada o início da vida liberal burguesa brasileira, no sentido de um estado republicano capaz de substituir a ordem monárquica.

De modo semelhante a "reforma agrária", dentro das normais legais, de João Goulart, teve valor mais de "conflito simbólico" do que prático... Seria necessário estabelecer vilas operárias e agrárias no interior, com a construção de urbanidades, parques, etc.

Depois da ditadura fascista dos anos 70, o retorno republicano burguês no Brasil seria a Democracia Institucional do PMDB, instalada nos anos 80... que não ocorreu, devido à influência imperialista.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reflexões sobre o Sentido do Patrimônio Histórico em Petrópolis do Ponto de Vista do Turismo e da Formação Cultural

Sécs XIX e XX

[1] O hábito de se guardar peças, monumentos e edificações para a admiração de visitantes em suas passeios de lazer parece tão justificado e arraigado que mal nos damos conta do quanto podemos estar perdendo em termos de real patrimônio histórico. Também em relação aos estudantes do segundo grau, p. ex., cujas visitas aos museus deveriam ser atos cívicos e de instrução, mas que apenas resultam em contidos e solenes atos de admiração... Visitantes de cidades interioranas, num outro exemplo, estariam em nossa cidade ávidos para ter em seus olhos o ouro da coroa monárquica e as cenas da guerra do Paraguai em heróicos painéis.

A cultura da homenagem, da reverência, da eloquência patriótica em relação aos vultos históricos têm sido um ritual já tantas vezes repetido e consagrado: Tiradentes e D. Pedro I; o Barão de Mauá e Santos Dumont; a Princesa Isabel e Rui Barbosa, todos pertencentes a uma paisagem ideal de vultos que cabe demonstrar ao turista atônito e ao estudante distraído.

Rituais que se tornam cada vez mais fáceis ao longo das décadas na administração pública, numa monótona sequência de calendários, ícones, santuários, exaltações, comemorações com frases feitas para estudantes.

Entretanto, qual é o verdadeiro patrimônio histórico que se está a perder de vista depois de tantas décadas de celebrações oficiais de ícones?

São as informações que dão a conhecer a história de como vivia nossa sociedade, quais eram as características dos povos nos séculos de formação, seus costumes; quais as forças e interesses em jogo na vida econômica, como se deu o esforço político de manter a unidade nacional, e assim por diante. A possibilidade de se vivenciar as cenas históricas como educação cultural, cívica, interpretativa.

Não havendo uma educação histórica para os monumentos eles se tornam apenas uma burocracia turística, uma bilheteria, um breve circuito antes da gastronomia.

 

[2] Para se substituir a cultura do deslumbramento e das homenagens seria necessário se rever a imagem de cidade histórica, tal como é dada ao turismo, enquanto “cidade imperial”. Ao invés do ícone “cidade-patrimônio do séc. XIX” (e ainda da República Velha), que deveria ser dado ao interesse turístico, cultural, educativo, o que temos é um ícone, e um jargão simplificador, que designa de “imperial”, todo um período, um acervo, que correspondem de fato à imagem de um Reinado “tropical”, cheio de desafios e contradições...

Em que pese a unidade militar e linguística ao logo do litoral, a imagem de um “Império”, que vem de tempos alexandrinos e romanos não corresponde exatamente à mistura de etnias, selvas e sertões inconquistados; e conflitos militares permanentes para se manter uma extensão territorial que é de fato assombrosa (por comparação com as nações espanholas). Entretanto, o domínio sobre a extensão territorial não significa a unidade nacional monárquica, de formação dos povos, de administrações regionais, e cartas legais sobre todo o território.

Enquanto verdadeiro Reinado, sem as exaltadas pompas patrióticas, a nação luso-brasileira de Dom João VI a Dom Pedro II nos desperta, por razões mais realistas, a admiração, o interesse para estudo, a curiosidade, e ainda o culto dos feitos heróicos e simpatia compreensiva para com os atos desastrados.

Por um aspecto, a imagem de “império”, escolhida pelo herdeiro de Dom João VI como grandioso programa político futuro, não deveria supor seu uso qualificativo para as cidades-sede ou de veraneio de nossos estimados monarcas: a transferência adjetiva se justifica como referência inicial ao patrimônio, como comentário sobre quem construiu tais urbanidades – não se trata de roubar o sentido turístico evidente: Entretanto, num sentido acadêmico, e no sentido de se educar os turistas e estudantes para além da identificação mais fácil, a reincidência do adjetivo imperial revela deslumbramento e preguiça mental em se contar verdadeiramente a História dos períodos, monarquia e república velha. A repetição mecânica e laudatória torna mais enfadonha a visita turística, ao passo que as verdadeiras informações sobre como se vivia, quais eram as formas das sociedades históricas - dariam ao turista, ao estudante, o enlevo e a curiosidade para uma visitação mais demorada.

O excesso de exaltação leva a seu oposto: a depreciação, a sátira, a destruição da brasilidade enquanto auto-estima. Por razões que poderiam ser determinadas, a cada sentença patriótica padronizada, o “descobrimento”, a “chegada da corte”, a “proclamação da independência”, a cultura brasileira real criou seus negativos, com anedotas depreciativas. É como se uma parte da brasilidade se voltasse contra si mesma, não permitindo a formação de imagens mais sinceras e interpretativas.

Este aspecto é bastante relevante para os estudantes do 2º Grau, que estão formando sua imagem histórica da cidade junto com sua cidadania. A repetição das anedotas fáceis sobre os feitos históricos, assim como sua exemplificação em um elenco mínimo de atos isolados que devem servir para memória, exaure inteiramente o sentido educacional que se poderia esperar.

Numa revisão mais sensata, as idéias de “cidade histórico-turística” (clima e ambiente), ou “cidade oitocentista” (como Ouro Preto, cidade “setecentista”/séc. xviii), ou “cidade histórica da monarquia e república velha” (adequada definição acadêmica) corresponderiam aos ícones mais autênticos, que deveriam estar numa primeira linha de expressão para a linguagem pública e administrativa; e de compreensão para interessados na História. A idéia de “cidade imperial” apenas como uma qualificação auxiliar, nos dispensa da fatal tonalidade provinciana com que aparecemos ao público mais educado.

Há uma certa ilusão de auto-estima nos repetidos adjetivos “imperiais” adotados a cada monumento; da mesma forma a aspiração a um certo “condado aristocrático”. Entretanto, estas aspirações imaginárias correspondem a realidades palpáveis, a serem adotadas como auto-estima: “nesta cidade projetada por um engenheiro renano no séc. XIX, convocado pelo Rei, nós podemos desfrutar de um ambiente histórico e aristocrático”. Ao invés do “monarquismo”, a compreensão dos valores aristocráticos para o estudante de História. Ao invés do deslumbramento ingênuo, a curiosidade e o lazer culto para o turista.

Se torna claro que as leituras sobre as monarquias e o período aristocrático europeu são atualmente todas feitas a partir da revolução burguesa e dos valores da nova classe burguesa e seus autores no séc. XIX. Isto explica ora uma exaltação desproporcionada por parte daqueles que gostariam de estar na condição aristocrática; ora inversamente, explica um certo ressentimento em ler o período aristocrático-monárquico somente sob seus aspectos críticos. Isto se repete em nossa cidade até nossos dias, impedindo uma leitura interpretativa e útil sobre o patrimônio. (Que se estende continuamente como urbanização mais elegante durante a República Velha).

Este patrimônio histórico que certamente pode servir muito mais ao turismo, às artes, ao ofício acadêmico.

 

Seria necessário assim destronar conceitualmente a imperialidade dos dois Pedros...

E lhes conceder um papel mais realista de Reis lusitanos tropicais. Esta seria a forma compreensiva, de uma Cultura, em resolver as contradições de uma identidade nacional imperializada, ora exaltada, ora desconhecida, ora depreciada. É nesta imagem de benevolentes Reis lusitanos que podemos depositar nossos respeitos cívicos e nossas celebrações de auto-estima: sendo os monarcas compreendidos por sua sincera devoção ao povo; e da mesma forma por suas ausências, por sua falta de objetividade, ao merecer os títulos imperiais – e assim por diante, numa sequência lógica e sentimental coerente.

Esta imagem de Dom Pedro, primeiro Rei do Brasil, e vigésimo-oitavo Rei de Portugal, apoiado e aceito pela burguesia nacional em seu advento, com suas abdicações e convicções anti-absolutistas, que devemos abrir ao estudante como História; que interessa ao turista ouvir o relato cheio de peripécias. Como um “Rei”, de dimensão compreensível, anti-escravagista, capaz de sair com seus auxiliares pelas noites quentes do Rio de Janeiro. Como “Imperador”, incompreensível, um enigma, como se existisse somente para os grandes atos que viriam a ser os ícones patrióticos.

 

[3] Sem dúvida não há ato administrativo, ou legal, que poderia nos levar a destronar um Imperador de imagem grandiloquente, difusa e contraditória, e dar posse a um Rei, que fosse mais popular, mais compreensível, mais útil àqueles que querem visitar sua imagens para saber como se formou o mundo brasileiro.

Os orgãos públicos poderiam apenas colaborar para a disseminação de idéias de valor histórico adequado, sob o interesse da cidadania, e também do turismo.

A solução para a falta de cultura crítica sobre o patrimônio histórico petropolitano se daria naturalmente com a implantação de um Instituto de cursos de extensão e de pós-graduação em História e Ciências Sociais Brasileiras na cidade.

Levando-se em conta sua tradição de Ciências Sociais e História, e possivelmente as possibilidades de atribuições funcionais e administrativas, mais provavelmente a Universidade Federal Fluminense poderia ser cotada para instalar um tal Instituto de Pós-Graduação.

Simultâneamente, seria necessário se saber qual disponibilidade e interesse a administração do Museu Imperial teria em participar, tendo em vista seu acervo bibliográfico. Esta seria uma iniciativa que poderia ser tomada pela Prefeitura Municipal, através da Fundação de Cultura.

Igualmente, o Instituto Histórico de Petrópolis deve ser mencionado por seu papel pioneiro, e por ter antecipado esta necessidade de extensão acadêmica na cidade. Levando-se em conta ainda seu acervo de estudos, artigos e literatura, a direção do I.H.P. poderia ser convidada a participar da coordenação de tal projeto.

 

[4] Em relação à expectativa turística, para turistas que deveríamos estar recebendo dos países europeus, incluindo aqueles pertencentes a nosso passado, a imagem de império e admiração de palácios se torna provinciana porque os palácios de verão da serra petropolitana são cópias menores de algumas dezenas de originais portugueses, espanhóis, franceses. Pela mesma lógica, estes turistas, que jamais nos visitam, teriam interesse em subir a serra por uns dias de mata atlântica e mansões oitocentistas de colonizadores – desde que este cenário fosse um fundo pitoresco para seu lazer/veraneio sulista. (Tenha-se em conta, p.ex., a quantidade de navios atracados na praça Mauá no verão, com milhares de turistas para o Carnaval, que poderiam estar se tornando turistas serranos).

Ao invés dos ícones de exaltação e pontos de peregrinação, que não interessam a estes turistas internacionais, o que teríamos aqui seria uma paisagem pitoresca, na qual as informações históricas são apenas um fundo agradável para programas artísticos e gastronômicos. Para tal, os quarteirões em torno do que se convencionou chamar de centro histórico seriam definitivamente adaptados como áreas de “calçadões” contínuos, com restaurantes, quiosques, bares musicais, de modo que o turista realmente se sinta motivado a tomar o conjunto do ambiente histórico como seu local de visita. A socialização com as gentes de uma cidade sul-americana é tão importante para o turista (tal como para nossos visitantes no exterior) quanto a tomada das informações históricas, ou a boa comida. Através das decorações boêmias e artísticas do centro histórico, de seu ambiente receptivo, o turista absorve com interesse as informações históricas: a época “imperial”, a “Guerra do Paraguai”, a “República Velha” - (A trilha de Bernardo Proença em 1724, até a selva densa e encharcada, onde depois Dom Pedro, das dinastias de Bourbon e de Bragança teve dificuldades para iniciar a construção de seus palácios de verão...)

Como ponto central de referência ao turista, a praça dos Expedicionários teria sua destinação revista, para abrigar um amplo quiosque de recepção, onde se teria o anúncio da programação cultural, com venda de tickets para programação cultural conjugada com visita aos pontos históricos. Um mapa vertical, artístico, com as indicações de interesse ao turista; guichet de contato para guias, etc. O monumento militar dos Expedicionários cederia seu lugar para esta nova praça, sendo escolhido outro local igualmente valorizado para este monumento, acrescido de mais informações militares para um memorial. Ao valor desta praça enquanto “praça do Teatro” se acrescenta o valor turístico, concedendo um aspecto cosmopolita e acolhedor ao Centro Histórico. Nas praças Rui Barbosa, e do monumento Koeler junto à Catedral, mais dois quiosques de recepção turística reforçam o aspecto acolhedor do Centro, de modo que o turista se sente motivado a percorrer a pé, por conta própria, os quarteirões.

 

[5] Para merecer seus títulos turísticos, já há muito a cidade petropolitana deveria ter obtido o controle completo da Prefeitura sobre as linhas de ônibus. Fica claro que não se pode falar de cultura, de artes, de turismo, se não somos capazes de resolver os problemas de trânsito. Para que o Centro Histórico fosse formado por calçadões quase contínuos, seria necessário que as vias centrais fossem atravessadas por faixas únicas e exclusivas para carros particulares, e faixas únicas e exclusivas para coletivos de maior porte. A aplicação das linhas exclusivas axiais, ligando os extremos da cidade não foi feita ainda em nossa urbe, apesar de consagrada pelo mundo afora. Estas vias exclusivas podem comportar coletivos maiores e frequentes, ao passo que em suas pontas, linhas de coletivos de pequeno porte podem partir na forma de estrelas regionais.

Quais os atos cívicos, políticos, administrativos necessários para que as linhas de ônibus sigam trajetos mais razoáveis e sob o controle do interesse público? E não de acordo com a autonomia das empresas em escolher trajetos e carrocerias de coletivos inadequados? Como se realizar a necessária duplicação da entrada/saída da Rua-avenida central através do túnel no interior da abandonada fábrica Alcântara? (Agora que a Companhia de Águas privada instalou sua estação de filtragem no caminho?) Por sua vez o hábito do automóvel individual, arraigado para as classes médias que reclamam do departamento de Trânsito... como poderia ser substituído por um outro hábito de se dirigir ao centro histórico?

Nenhum destes costumes poderiam ser modificados através de leis ou decretos institucionais. Somente através da compreensão coletiva de sua necessidade de modificação, através do sacrifício individual para com o interesse público, poderiam novos costumes ser instaurados. Nesse sentido é que compreendemos a necessidade da educação cultural, que precede os atos cívicos e políticos.

[6] É nesse cenário que uma Fundação de Turismo e Cultura tem seu papel realçado como órgão planejador da Cultura petropolitana, além de produtor de eventos e realizações artísticas:

Promovendo a imagem internacional da cidade. Promovendo uma visão realista e autêntica sobre o sentido do patrimônio histórico. Educando o cidadão local para a perspectiva histórico-turística. Colaborando com uma Secretaria de Cultura independente, para a aplicação de programas baseados na reflexão crítica, especializada, sobre a História local. Assumindo a iniciativa para a implantação de um Instituto de pós-Graduação (sécs. XIX e XX). Articulando as experiências e os acervos do Museu Imperial e do Instituto Histórico. Articulando o interesse empresarial sobre estas atividades turísticas e culturais, incluindo-se o da empresa jornalística da família Orleans e Bragança – estes que seriam os primeiros interessados em se “destronar” um Imperador abstrato e monumental, em lugar de um “Rei” mais plausível e sedutor.

 

[7] Ainda que o antigo Centro de Cultura Raul de Leoni, novamente transformado em Secretaria de Cultura (tal como nos anos 80), não viesse a se tornar órgão independente da Fundação (conforme em outro documento de projeto), seria necessário que se fizesse um desmembramento de atividades e atribuições internas desta.

Uma Secretaria de Cultura, como órgão não-empresarial, tipicamente governamental e de fomento, lida diretamente com o público interno, com os artistas da cidade, para o desenvolvimento de projetos culturais, na forma de concepções artísticas, interpretações históricas, etc. Uma Fundação Turístico-Cultural, como órgão empresarial, reforça os programas da Sec. de Cultura, promovendo a imagem nacional e internacional da cidade.

É a Fundação, enfim, que tem a capacidade executiva de propor os projetos de turismo e cultura, em paridade com o conjunto das políticas governamentais da Prefeitura, influenciando na determinação destas políticas. Certamente, não como um órgão que trata de suas administrações de forma isolada, autônoma, porém sem interferência nas decisões que afetam o conjunto das políticas administrativas municipais.

 

[8] Uma verdadeira interferência na paisagem arquitetônica e no trânsito no Centro Histórico – para que de fato se tornasse aprazível ao turista, e justificasse seu nome – só teria sentido político e ético, se fosse compensado por outras interferências na paisagem urbana, abrindo espaços recreativos e comerciais para as classes trabalhadoras, rurais e médias dos bairros afastados. Jamais uma interferência urbanística, como ato administrativo, como realização de obras, poderia ser admitida, sem o encaminhamento prévio à comunidade, na forma de um projeto econômico, ou de convivência social. Neste caso, projeto de educação cultural.

A exemplo da administração municipal 2004-2008, que deu início à reforma da paisagem no centro da cidade sem liderar a comunidade, sem apresentar um projeto social coerente (trânsito, comércio, turismo), é preciso evitar o sentido de obras que surgem como atos administrativos autocráticos, que não resultam de uma coerente composição do interesse social. Na medida em que obras de interferência resultam da articulação da Prefeitura com as classes e setores econômicos, elas são previamente entendidas e aceitas, em qualquer prazo ou proporções de contratos.

Não há funcionalidade pura de pranchetas técnicas que possa substituir a habilidade política em compor e recompor o interesse social, de compreender e interpretar as necessidades físicas do Município. Uma reforma exemplar do Centro Histórico resultaria num perfil econômico de preços mais elevados nestes quarteirões, em relação ao padrão do Município, em função do comércio turístico mais refinado, o que é do interesse de um setor de classe. Uma interferência tipicamente compensadora, seria a caracterização de uma área de mercado e cultura popular no entorno praça da Inconfidência / Mal. Carmona / Rodoviária. Com uma certa habilidade em se distribuir os espaços abertos de feiras, as quitandas, os super-mercados e terminais de ônibus, esta área seria “popular”, porém não numa descontinuidade de cuidados arquitetônicos e aparência com a parte central, mas num sentido compensatório para se alojar o comércio de utilidades afastado do setor turístico. A habilidade administrativa estaria em atrair os turistas para as feiras populares; no outro aspecto, não permitir que as classes de menor renda se sintam excluídas do Centro Histórico, criando atrativos internos na forma da educação cultural, artística.

Característica de uma administração autocrática, tecnocrática, que não interpreta as necessidades sociais, a rodoviária-terminal do Bingen, é exemplo de desperdício em investimentos “faraônicos”, de duvidosa concepção e ausência de preocupação com seus efeitos na vida diária profissional dos cidadãos. Levando-se em conta estatísticas de cerca de 18 mil petropolitanos que trabalhavam no centro da cidade do Rio de Janeiro, até a inauguração deste terminal, seria mais sensato se manter uma quantidade de linhas da rodoviária central (Mal. Carmona, ou outra) até o Castelo. Estas saídas do Centro para o Rio de Janeiro dividiriam os passageiros com mais 3 terminais para o Rio: do Bingen, do Quitandinha, e de Itaipava. Nos fins-de-semana, as viagens até a rodoviária central permanecem para os turistas.

O terminal do Bingen, feito para atrair turistas para o comércio do bairro, é um local de névoas geladas, como se sabe, que seriam em si mesmas atrativos “turísticos”... Entretanto, por ser lugar inóspito (em conflito ambiental, perigoso para ônibus de passageiros na br-040), deveria ser desativado para passageiros, com exceção de ¼ das linhas para Rio / Niterói. Mantendo-se sua estrutura, se transformaria em terminal de cargas.

Na saída Quitandinha, onde está o super-mercado “sendas”, também uma praça de mercado popular, comércio de utilidades e terminal de ônibus poderia ser instalada. Desse ponto sairiam ¼ das viagens para o Rio. E ainda uma quantidade de linhas locais de pequenos ônibus e transportes menores. É importante observar que os embarques para ônibus em “praça aberta” são mais interessantes para a população, e não os embarques em terminais fechados, onde se fariam as baldeações. Nesse caso, aqueles que se dirigem a suas residências ficam encerrados e entediados, sem acesso à praça comercial. Nessas praças a Prefeitura também deve investir em eventos artísticos e educativos. Com mais uma praça deste tipo em Itaipava/Bonsucesso, e terminal para mais ¼ das viagens ao Rio, podemos compor um projeto para a paisagem social de Petrópolis.

Como um aspecto a ser considerado, do ponto de vista da formulação da cultura de nossa aristocrática cidade serrana, do ponto de vista da descoberta de sua identidade e auto-estima, uma reflexão final deve ser dirigida ao fato de que uma classe média se formou na cidade a partir do comércio, com uma certa identidade nos anos 60 e 70. Nos anos 80 e 90, uma outra classe média, com perfil de renda um pouco mais elevado, veio do Rio de Janeiro, para se instalar na cidade, disputando com a classe média inicial, por assim dizer, seus espaços habitacionais, culturais, políticos. Esse aspecto explica uma certa dificuldade em se definir a vocação da cidade, e deve ser levado em consideração cuidadosamente, ao se definir projetos municipais socialmente consequentes.

 

Ciro Moroni Barroso, 2011