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Vitrais de Benedito Calixto na Matriz de Bocaina, SP, 1923

 

 

 

 

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Da Cultura

 

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Fundação Cultural-Turística e Secretaria de Cultura

[A] A Fundação Cultural (hoje de Cult. e Turismo) ao ser criada durante o governo Sergio Fadel acumula duas funções distintas, e em alguns aspectos contraditórias.

Uma verdadeira preocupação com o que se poderia definir como uma política cultural deixou de existir com a extinção da então Secretaria de Cultura, passando a vida cultural da cidade a ser gerida em termos da “produção de eventos e festas”, num molde que seria característico de uma Fundação para o turismo.

Não seria preciso dizer que, do ponto de vista do interesse turístico, empresarial, comercial, uma fundação tipicamente turístico-cultural, tem um mérito próprio (na sociedade, no mercado) que deve ser enfatizado. Este mérito, na administração municipal, deixa de ser contraditório em relação à política cultural, como veremos adiante, caso a política cultural seja desmembrada da administração da FCTP, se tornando orgão independente.

Ao ser criada, num modelo de produção de espetáculos, a administração da Fundação Cultural passou a ser concebida como autocrática, funcionando nos termos empresariais com “gerentes”... A referência aos artistas e criadores culturais da cidade para a confecção da programação deixou de ser enfatizada: esta era de certa forma “concedida” aos artistas, que deveriam se sentir satisfeitos por receberem contratos e cachês, de uma forma individualizada, desunida, e em alguns exemplos exclusiva, e mesmo politicamente clientelista.

É hora de reestabelecermos uma verdadeira política cultural na Cidade, o que deveria ser realizado por uma Secretaria de Cultura que funcionasse como o reflexo e a representação da classe artística e dos criadores culturais da cidade. Essa Secretaria, que não necessitaria ser de grande porte, seria autônoma, em termos de um orçamento anual prévio, para a realização de cursos, oficinas e apresentações de artistas locais no padrão dos festivais anuais.

A Fundação Cultural-Turística tem sua razão de ser na produção de festas e eventos de grande porte, porém numa politica inteiramente diversa da Secretaria, por ser um orgão arrecadador de patrocínios da iniciativa privada e de orgãos nacionais/ internacionais, sendo portanto um orgão que atende aos interesses da classe empresarial ligada ao turismo e ao comércio, podendo contratar cachês artísticos de alto valor, p. exemplo. Na medida em que estão em jogo os interesses turísticos, de preservação custosa do patrimônio histórico, e a consequente movimentação vultosa de recursos, é natural que isto seja feito através de uma Fundação, que capte recursos externos, desonerarando os cofres municipais. Deve-se levar em conta que uma política empresarial e promocional bem feita, a nível internacional, pode ser capaz de gerar de fato os enormes recursos (bancos de fomento, unesco) que seriam necessários para uma verdadeira restauração do centro histórico, sem o que as restaurações continuarão a ser reformas de pontos localizados.

Sendo a Fundação capaz de trazer nomes nacionais e internacionais à cidade, uma Secretaria de Cultura tem funções bem opostas, porque teria a finalidade de fomento das tradições e da identidade histórica, promovendo as carreiras artísticas desde suas origens mais frágeis e amadorísticas, educando os estudantes nas diversas oficinas. Neste sentido a Cultura necessita ter uma Secretaria semelhante à de Educação, ou de Ass. Social.

Sob estes aspectos, a Fundação, como órgão empresarial, cosmopolita, autônomo e iconográfico em si mesmo, deveria necessariamente estar instalada num dos casarões antigos da cidade.

O Centro de Cultura Raul de Leoni, cujo prédio com janelas de vidro vedadas (que resultou de uma biblioteca com ar refrigerado dos anos 70, que nunca chegou a ser instalado), após tantos anos de uso inconveniente, ficou consagrado em sua utilização enquanto Secretaria de Cultura desde os anos 80. A sala de 160 lugares, as salas para cinema, dança, exposições, oficinas, deram ao lugar sua característica definitiva para a prática das artes e cultura municipais. Desde que realizadas necessárias reformas arquitetônicas e de ventilação, este prédio deveria ser mantido como ponto de referência social, como referência enquanto “lugar dos artistas” e Sec. de Cultura. Nesse caso, não para os espaços administrativos da Fundação, ou outro orgão.

 

[B] A partir de sua pauta inicial de trabalho, a Sec. de Cultura vai atuar em parceira com a Fundação. Com o tempo, a vida cultural que a Fundação e a Secretaria promovem, se tornam complementares. É do interesse da administração municipal que a Secretaria de Cultura dê formação a artistas locais, os quais podem ser apresentados pela Fundação em eventos de grande porte, locais ou nacionais, feiras, etc. Em consequência a Fundação pode acrescentar verbas específicas além daquelas previstas nos orçamentos anuais iniciais da gestão da Sec. de Cultura. Desta forma, apenas para realizações excepcionais, o Sec. de Cultura estará requisitando verbas extras à Fundação na base de patrocínios concedidos a partir do projeto artístico.

Uma forma clara e imediata de se definir uma Secretaria de Cultura é que ela seria uma Casa dos Artistas, lugar físico de encontro e deliberação. Esta vivência, entretanto, se daria de modo permanente, e não apenas em função de demandas localizadas, conforme é a tendência generalizada em todas relações institucionais. Através de comissões e representações setoriais, e na medida em que esta Secretaria abrigasse um bom número de salas de oficinas e cursos, os dirigentes responsáveis por esta Secretaria teriam uma visão e um contato direto, em escalar maior, das tendências e demandas dos elementos ativos e criadores na cidade, de modo que a Secretaria teria uma pequena vida social interna.

É claro que para estas funções seriam designados aqueles líderes comunitários, da classe artística, partidários, etc, ligados às preocupações sociais. O perfil desta Secretaria é bem diverso do atual modelo empresarial-clientelista da Fundação, sendo um orgão com finalidade de fomento e proteção ao corpo social, como as Secs. de Assistência Social e Meio-Ambiente, operando portanto com uma visão de orçamento a fundo perdido.

A demanda de que o Secretário de Cultura tenha já previsto e designado, a cada ano, seu orçamento básico para a produção cultural, é compensada pelo fato de que este orçamento é infinitamente menor em vista das outras Secretarias municipais.

 

Diretor de Cultura

[C] Um Secretario de Cultura, nestes termos, se torna um verdadeiro Diretor de Cultura: como membro da classe artística, suas políticas são consequência da vivência direta dos desafios ao longo do tempo. Assim, ao assumir a administração pública, este Secretário estará apenas concentrando mais na instituição pública aquelas reflexões e experiências já existentes. Com o tempo, uma Secretaria de Cultura, como local de encontro da classe, passa a ser fomentadora das políticas culturais, além dos programas culturais.

Sempre buscando o ofício da experiência direta, em lugar da burocratização e da regulamentação que parecem sempre ilusórias formas de eficiência e igualitarismo, a administração de uma Sec. de Cultura se resolve da forma mais simples e tradicional:

Um Diretor de Cultura (o Secretario, com 1 ou 2 assistentes) tem a função central junto a um colegiado de diretores, designados segundo cada setor artístico. Um Diretor para Teatro, um Diretor para Música, um Diretor para Artes Plásticas... Havendo mais setores do que possibilidades para diretores, estes podem acumular diretorias: o mesmo de artes plásticas cuida do artesanato, p. ex, ou o de música erudita atende igualmente a música popular. Ou os setores artísticos sem diretorias próprias podem ser acumulados pelo Diretor-Secretário.

Havendo possibilidades de Diretores suficientes, as categorias são desmembradas: um Diretor para pintura contemporânea, outro para pintura figurativa; um Diretor para música erudita, outro para popular: ou talvez um para dança clássica e outro para street dance, jazz, etc. Para o setor musical, 3, mesmo 4 diretorias, podem ser consideradas; (ou ainda, de modo criativo, uma diretoria para pintura abstrata e jazz, e uma outra para música clássica e pintura expressionista)...

É claro que critérios artísticos precisam definir estes setores e diretorias, de acordo com os contextos históricos reconhecidos, o que jamais poderia caber numa planilha burocrática-funcional prévia.

Uma Assessoria de Imprensa. Funcionários de manutenção e serviços para salas de apresentações, exposições e oficinas.

Além disso, uma Direção para cursos e oficinas, que pode ser da Assistência do Sec.-Diretor. A forma tradicional de agendamento de cursos e oficinas é a que mais favorece o desenvolvimento artístico conforme o verdadeiro perfil da sociedade: a Secretaria fornece salas e equipamento e faz o agendamento dos cursos e oficinas com tarifas de preços acessíveis aos estudantes. Estas são repassadas no todo ou em parte ao professor. Não seria necessário se ter admissões gratuitas a não ser para os casos especiais. Ao contrário das formas de planilhas que resultariam de um enredo interminável de regulamentações, o agendamento de cursos e oficinas resulta simplesmente da capacidade de discernimentio de um Diretor. Sempre em função dos espaços disponíveis, um Diretor decide pelo agendamento de, digamos, um entre três projetos do mesmo tipo para oficina ou apresentação artística. Os outros dois pedidos não atendidos serão compensados no tempo; ou no espaço, p. ex., dirigindo um grupo para outro Teatro de bairro que não a Sala-Teatro da Sec. de Cultura.

Nesse caso um Diretor (Secretário) de Cultura estaria realizando sua tarefa típica de orientar um determinado grupo artístico que tenha dificuldade de agendamento por sua natureza demasiado amadorística: ao invés da simples não-inclusão administrativa, o Diretor dá sugestões para a formação do grupo em início de carreira.

 

Caminhão de Cultura

[D] Além de conhecer e atender politicamente as demandas culturais e artísticas da cidade, um dirigente cultural deve ser capaz de projetar políticas necessárias, mesmo não requisitadas, como p. ex., um projeto de Caminhão de Cultura. (É necessário um projeto de caminhão com palco que percorra os bairros da cidade aos domingos levando teatro, música, dança e educação, para uma tentativa de se desviar o hábito arraigado da televisão.)

Um exemplo no qual o Secretário faz um projeto específico para obter dotação da Fundação poderia ser o de apresentações nas praças da cidade. A Fundação, neste caso, estaria incluindo estes espetáculos em seu roteiro turístico. É importante que a programação seja consequência da vida cultural interna da Secretaria, e não o oposto, tal como atualmente, em que a vida cultural segue a reboque dos eventos isolados de programação.

O hábito consagrado de se realizar concursos (pintura, teatro, música) para a promoção artística no Município precisaria ser reforçado enquanto experiência de jornadas, e experiências coletivas, e menos enquanto atribuição dos prêmios: a atribuição de “prêmios” em valores monetários aos primeiros (segundos, terceiros) lugares desestimula os “perdedores”. Para cada mostra, os “prêmios” deveriam ser os mesmos para todos os classificados. Melhor ainda, o prêmio artístico a ser entendido deve ser a apresentação num festival de escolhidos. Neste caso, a Sec. de Cultura apenas repassa a bilheteria do evento aos grupos “vencedores”.

O hábito da “disputa” entre concorrentes, que parece tão inocente, a rigor, não favorece o desenvolvimento artístico. O burocratismo das licitações e regras para concursos acaba por consolidar o espírito de competição como critério para escolha. A direção da cultura, no entanto, é um ato político, que pode seguir uma ética de compensações, e conforme o conhecimento técnico e específico das artes. Esta direção, feita por representantes da classe, visando objetivos específicos, preferenciais, deveria substituir o trabalho constante das comissões de jurados que, de modo aparentemente regrado e virtuoso, designam “vencedores”, que se distinguem de “perdedores”, e assim por diante.

 

[E] Na concepção dos “centros de cultura”, a exemplo dos centros de Nogueira e Pedro do Rio, e principalmente do Raul de Leoni, o mais importante é a atividade ininterrupta de cursos, encontros e apresentações, criando atividade social junto com atividade cultural para o público interno, sem necessidade de divulgação como grande espetáculo.

Em outros centros, como Casa Stephan Zweig e Casa do Alemão, é importante não se restringir somente à apresentação de acervo e informações, que se tornam pouco visitados, mas também, a exemplo dos outros centros, que sejam locais de atividades culturais específicas, constantes.

Na Casa do Alemão, conforme já indicado por membros do Clube 29 de Junho, poderia se instalar um clube cultural, como extensão do próprio 29 de Junho.

Alternativamente, a Casa Stephan Zweig poderia se conjugar com um clube cultural alemão. (Nesse caso, p. ex., a característica ideal do sobrado antigo na esquina próxima das Duas Pontes). Biblioteca com edições brasileiras de Zweig, edições alemãs de Zweig e autores seus contemporâneos, aulas de alemão, cinemateca alemã, cervejaria, etc, seriam modos de se preencher e justificar a referência à estadia do cronista em nossa cidade.

 

Um exemplo de parceria natural entre a Fundação e a Secretaria seria a Festa do Alemão. Sendo a organização da festa tarefa da Fundação, é necessária na Feira uma barraca de cultura alemã, onde se fale o alemão e se receba turistas, com mapas do século dezenove da Alemanha e de Petrópolis, referências às famílias, à culinária, à geografia, etc, escritas em quadros em alemão e português – esta seria a tarefa da Sec. de Cultura. Seria interessante também a instalação de sala de agências de viagens, com referências à Alemanha atual, de modo a atrair turistas brasileiros para a Alemanha, e alemães para Petrópolis.

Uma vez que o Centro Histórico possa sofrer reformas para um calçadão quase contínuo, de modo a se tornar mais convidativo para turismo, a Festa do Alemão poderia ser estendida no espaço, para compensar o adensamento que provoca nos dias de seu calendário habitual. Sendo diversificada ao máximo com expressões artísticas, e sendo a principal atração turística do Município, a Festa do Alemão poderia ainda ser estendida no tempo, todo o mês de Junho, p.ex.. Desse modo seu valor comercial se estende mais, diminuindo o impacto ambiental cotidiano.

Seria interessante o deslocamento do monumento dos Expedicionários, para liberar a área central da Praça do Teatro (um novo nome...) para uma central de turismo. O prédio do Grande Hotel, numa tal paisagem urbana reformada, seria idealmente adquirido pelo poder público para se tornar Arquivo Municipal, Museu de História local, e um restaurante turístico no último andar. Para tanto, seria concebível a instalação de um elevador externo ornamental que criasse um ícone turístico. Num tal projeto, poderia se convencer a opinião pública a substituir este novo ícone turístico pelo atual obelisco, “monstro sagrado”, mas na verdade monumento pouco estético. No prédio do Grande Hotel haveria salas de memória sobre os emigrantes alemães, italianos, sobre os expedicionários da 2a Guerra, etc, de modo a compensar a demolição do obelisco como monumento celebrativo.

C.M.B.

2004//2012