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Notas da Cultura

Tribuna de Petrópolis

27 de Setembro de 2001

a) Para a maioria das pessoas Arte e Cultura são apenas Representação e Entretenimento. Faríamos canções, ou pinturas, ou peças teatrais apenas para celebrar tudo aquilo que já está, de uma forma ou de outra, reconhecido pela tradição. Para muitos, o Estado deve fomentar a Cultura no sentido de proteger os “direitos” daqueles que querem expressar profissionalmente a representação e o entretenimento, oferecendo salários públicos.

b) A parte mais relevante da criação artística, entretanto, tem sido estranha aos estados constituídos, estranha mesmo a qualquer fomento. Para muitos artistas é necessário “pagar” para poderem apresentar socialmente suas criações. Neste outro sentido, oposto ao anterior, estão os artistas radicais, que se vêem como revolucionários, e que só podem conceber a arte como contestação das formas sociais constituídas. Estes artistas, assim, deparam-se, queixosamente, com uma marginalidade já previamente suposta.

c) Neste divórcio, o Estado acaba por se tornar apenas um conservador de arte e cultura, protegendo a cultura conservadora. Na cultura conservadora estão os “eruditos”, aqueles que são capazes de reapresentar de forma cumulativa a história cultural, com acervos cada vez maiores de fatos já sabidos, ou que devem ser sabidos, de maneira a celebrar a Representação e o Entretenimento.

d) Numa nota especial na história da cultura conservadora devemos contemplar o Pedantismo: o fim da crítica e da auto-crítica, o exibicionismo da pessoa em torno de uma mesma questão consagrada, o ritual das homenagens mútuas, o reconhecimento do que já está reconhecido, a impossibilidade de criar, a linguagem legítima só pelo dicionário, a exposição do repertório cumulativo inútil, a cultura como bagagem – não como carruagem

e) A cultura clássica, habitualmente, é a maior vítima

do Pedantismo. Na cultura clássica, alegria e serenidade se encontram, a tragédia, o humor e o romance se substituem infinitamente. Para muita gente, seria assustador, por exemplo, descobrir em Homero o tom desmesurado, aventureiro, arbitrário, por trás das traduções solenes, vetustas e empoladas.

f) De um lado a Cultura como Conservação, de outro como Transgressão: é difícil encontrar o comentário que descobre uma marca original, a crítica que descobre um valor falsificado no que foi consagrado, a nova versão que realça tons que estavam indefinidos, a recriação daquilo que foi dado como Real.

g) As sociedades felizes desenvolvem artes que têm o caráter clássico: a celebração devida de algo que esteve por muito tempo em maturação, que nasceu da contradição e da dificuldade, mas que, finalmente, pôde ser constituído e expresso. As sociedades estagnadas necessitam da arte revolucionária.

h) Somente um estado revolucionário pode sustentar arte revolucionária. O revolucionário não é a guerra civil. O revolucionário pode ser bastante pacífico e sutil: em verdade, é o revolucionário que pode evitar a guerra civil. Revoluções se tornam violentas quando inviabilizadas, pela violência sofrida, ou pela repressão sistemática à mudança, que se apresenta historicamente.

i) Em nossa cidade, os heróis do conservadorismo e da arrogância, duques e barões assinalados, continuam a fomentar o ódio ao Esclarecimento, disseminando preconceitos e a lógica maniqueísta. A diferença entre pobres e ricos é reiterada e estratificada, de modo a que os ricos tenham o mérito por sua riqueza, e os pobres a culpa por sua pobreza... Como se sabe, há muita pobreza espiritual que é consequência da riqueza material, assim como é possível o surgimento de gênios dentro da pobreza material.

j) Numa direção oposta ao sectarismo dos duques e barões assinalados, podemos observar o sectarismo da arte que denuncia a “repressão”. Tentando alcançar um caráter romântico, toda a ação está concentrada numa explosão emocional contida, que precisa ser “liberta”. Ao invés de libertários, tornam-se os sempre sofredores-da-arte, que necessitam da repressão, como tal, para a montagem de um sentido estético.

k) Em nossa pseudo-modernidade de celebrações tecnológicas, uma consideração especial deve ser dirigida aos artistas de teatro: rodeados por todas as máquinas que nos seduzem, estes artistas são capazes de entrar em ação apenas com a máquina de seus corpos.

l) O fato de a Arte Naïf ser tratada como tal, mostra como é difícil a conceituação do valor artístico. Por outro lado, a capacidade de pesquisa e elaboração de alguns artistas, inseridos em épocas ou classes sociais “ricas”, requer o reconhecimento de uma certa afirmação de valor elitizado. Os heróis do sectarismo confundem propositalmente o valor estético elitizado com o sentido de elite social e econômico valorizado, obliterando a abundância de produção Naïf na classe burguesa.

m) Um sectarismo mais recente,

baseado num deslumbramento para eles original sobre um tema antigo, é o daqueles que acreditam ser a pintura abstrata não a conquista ritualística de uma etapa da experiência, mas a consagração consumada da arte pictórica (em termos da história da cultura ocidental). O dualismo abstrato versus figurativo é explorado como se encerrasse a chave filosófica da interpretação estética, resultando num discurso entediante.

n) A qualidade de abstração que é identificada à pintura contemporânea é fruto de uma pesquisa na direção das formas, substâncias e colorações originais na possibilidade da expressão, assim como das “forças” as quais pode possuir, ou ser por elas possuído, o artista que preenche uma tela. A arte que é “contemporânea” é um ritual de passagem e um comentário sobre o que já foi vivido.

o) Provavelmente, ao longo do tempo, a arte da pintura terá muito mais a característica mista abstrato-figurativo, do que as características exclusivas somente abstrato, ou somente figurativo. A tensão entre as duas concepções certamente retornará infinitamente no tempo cultural.

p) A arte revolucionária (ou qualquer ação com este caráter) deve ter a semelhança de uma Contracultura. Consequência, principalmente, do Pensamento da Costa Oeste norte-americana nos anos 70, a Contracultura se diferencia do revolucionarismo dialético, do alternativismo, do anarquismo, do pós-modernismo, da integração forçada, da decadência, da contestação e das “anti-culturas”.

O gesto dialético está profundamente envolvido com aquilo que deseja negar, ou superar, de modo que uma nova modalidade só pode surgir comprometida, numa ligação estrutural, com a velha modalidade: O diálogo é exaustivo, passo a passo, por meio de acordos e desacordos, de afirmação e negação, um recuo depois de cada avanço... A cultura dialética vive de uma ética tímida, sem o brilho estético ou filosófico.

Enquanto o Alternativismo é o simples afastamento e tentativa de sobrevivência ao largo, a Contracultura (no original, movimento de contraponto e retorno) é o ritual do afastamento, reconstituição da Cultura num sentido autônomo e crítico, inclusive das tradições, e reinserção polêmica na cultura oficializada. A condição interna do ato é de independência e provocação. Ao invés da contestação, a cultura oficial recebe um “presente”, que é suficiente para neutralizá-la, ou desconstruí-la.

C.M.Barroso – Centro de Cultura Raul de Leoni